21 junho 2017

O Lado A e o Lado B





Enquanto lia o ensaio de Luiz Felipe Pondé O Lado B da Democracia no caderno “Ilustrada” da Folha de São Paulo de 12 de junho de 2017, veio a mente os discos de vinil que nos anos sessenta comprava na famosa Loja Olacanti em Campina Grande – PB, a 60 km de minha terra natal (Alagoa Grande – PB). Como no local onde morava não havia lojas de produtos musicais, era para a cidade denominada "Rainha da Borborema" que me dirigia a procura dos últimos lançamentos da MPB.

Aprendemos que era no lado A do disco de vinil que, geralmente, se concentravam os melhores ou mais populares sucessos dos artistas/cantores. Para que escolhêssemos o disco dos nossos desejos, o vendedor, de tão acostumado, passava pela agulha da radiola apenas duas ou três faixas musicais do lado A, as quais, ouvíamos com sofreguidão. O lado B, de um modo geral, era relegado a um segundo plano, por conter canções não muitos tocadas no mundo midiático das emissoras de rádio. A mídia muito poderosa punha no lado A do disco as músicas “carros-chefe”, anteriormente propagadas com intensidade, com a finalidade de atrair a nossa percepção psíquico/auditiva. Aqui ou acolá, nos surpreendíamos com uma melodia feia mas com letra fenomenal no lado B do disco. Mas isso era uma exceção.

Para um melhor entendimento da analogia que faço dos fantásticos discos de radiola do tempo de minha mocidade com a democracia atual, uma inversão se faz necessária: o lado B do disco metafórico da democracia analisada por Pondé, corresponderia ao lado A do vinil que tanto esforço demandava para comprá-lo.

O filósofo e ensaísta da Folha, em seu profundo e maravilhoso artigo, vai ao âmago daquilo que provoca nossas escolhas, ao citar uma frase do cineasta Woody Allen, em “Crimes e Pecados”: o que buscamos na maior parte das vezes são racionalizações que justifiquem nossos desejos”.

Nunca se falou tanto em democracia, ética e moral quanto nos tempos sombrios e conflituosos de nossa atual e conturbada república. O ensaísta Pondé, com sobejada razão, mostra que é num lado de nosso frágil e utópico regime, que se concentra um populismo altamente contagioso: “O populismo se alimenta de nossa infantilidade. Queremos soluções claras e distintas para confusa realidade em que vivemos. Alguém que coloque Brasília em ordem, alguém que faça justiça. O trono por excelência do amante do populismo é a cadeira da sua sala de casa, na frente da televisão, xingando todo mundo”.

Como não concordar com a magistral declaração de Luiz Felipe Pondé, desenho de nossa própria cara, acima reproduzida? O autor, em sua narrativa feita na primeira pessoa do plural (especialmente no desfecho do seu frio e cortante texto), nos impele a uma espécie de auto-imolação:

A vocação primeira da democracia é o populismo. Só com muito esforço resistimos a ele porque a política é confusa, ambivalente, sombria, retórica, suja, enfim, humana, demasiadamente humana. […] A sabedoria está nos detalhes e a fúria política popular não tem vocação aos detalhes, mas apenas a shows, fogueiras e linchamentos.”

A democracia tem dois lados porque o homem é ambivalente. O equilíbrio nunca virá se ficarmos só endeusando o nosso lado A e, por ser obscuro, relegando indefinidamente o nosso lado B.

O nosso lado B é a sombra assombrosa que nos acompanha, sombra feia que a luz nos delineia sobre o chão. O poeta e escritor Robert Bly descreve essa sombra, esse sombrio lado B, como um saco invisível que carregamos nas costas. À medida que crescemos colocamos no saco todos os aspectos de nós mesmos que não são aceitáveis para nossos familiares e amigos. Passamos as primeiras décadas da vida enchendo esse saco, depois, passamos o restante tentando tirar tudo que escondemos”.

O temor de que a quebra de padrões culturais culmine em um pandemônio social faz com que não aceitemos o nosso lado B. Nesse sentido todos nós somos reacionários, o seja, estamos sempre nos escorando em atitudes moralistas e neo-religiosas de natureza defensiva. O lado A com suas músicas preferidas, como a foto do disco de vinil no topo desse pequeno ensaio, mostra a nossa face aprazível que aparece visível para a sociedade. É através dela que nos regozijamos e interagimos.

O psicanalista freudiano, Michael kahn, para explicar a sincronia entre o lado A e o lado B de nossa vida mental, construiu uma imagem bem simples e certeira: descreveu o lado B(conteúdo recalcado da psique) como “um amplo hall de entrada cheio de imagens mentais, todas tentando entrar em uma pequena sala de visita (consciência), para a qual o hall de entrada dava acesso. Naquela sala de visitas, habita a consciência, com quem os impulsos esperam conseguir uma audiência. No corredor entre o hall e a sala de visitas, posta-se um vigia, cuja tarefa consiste em examinar cada impulso que busca admissão e decidir se ele é aceitável ou não. Se não for, o vigia(a censura) o expulsa”. [Pensamentos psicanalíticos para o século XXI Michael kahn Editora Civilização Brasileira]

Em suma, Michael kahn quis mostrar que a emoção indesejada ou vergonha surge quando algum impulso ou algum conteúdo do lado B, apesar da barreira imposta pela censura (o vigia), consegue entrar na nossa sala de visitas.

Resumo da ópera: Nem sempre o vigia consegue segurar ou ocultar o que se encontra escondido a sete chaves no nosso lado B.

Em tempos litigiosos e de delações nunca é demais lembrar uma máxima bíblica neo-testamentária que vem atravessando os tempos sem nunca esmorecer: “aquele que não negar, mas antes confessar seu lado B, alcança misericórdia”.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 21 de junho de 2017

28 maio 2017

Clarice, Caetano e Marília Pera ― Entrelaçamentos





Na atualidade não há como negar a existência de um forte entrelaçamento entre a Literatura e a Psicanálise. Uma instância não vive sem a outra, pois a matéria prima que manejam é a mesma: a letra, que vem da fala ou do dito, dos lapsos, das crônicas, dos contos, dos sonhos, da poesia, dos desejos não realizados, enfim, da imaginação. Não foi à toa que a psicologia foi buscar na literatura os principais elementos metafóricos para formulação da Teoria do Inconsciente. As grandes obras de Freud, sem nenhuma dúvida, foram frutos da leitura reflexiva de um épico clássico ― “Édipo Rei” ― de Sófocles, especialmente destinado ao teatro.

A psicanálise parte da fala e da ausculta do sujeito, no intento de que afetos escondidos a sete chaves possam vir à tona. De maneira análoga, a literatura ou o ato de escrever, por sua vez, permite a vazão dos conteúdos latentes do inconsciente. Tudo isso demonstra com clareza que essas duas misteriosas instâncias são, na verdade, irmãs siamesas.

Comentando o conto “Mineirinho” “Clarice na Cabeceira” (Editora Rocco) escreveu Caetano Veloso: “Clarice Lispector teve um enorme impacto sobre mim”. Em 1959, quando ainda era um imberbe jovem de Santo Amaro na Bahia, ficara profundamente impressionado após ler o conto de Clarice,A Imitação da Rosa”.

Em 1968, um dos anos mais turbulentos da ditadura militar, Caetano e outros artistas exigiam do governador do Rio uma posição sobre o estudante Edson Luís assassinado de maneira covarde no restaurante universitário (Calabouço), ocasião em que, sorrateiramente, foi abordado por uma mulher: Sou eu, Caetano!” ― anunciou, Clarice Lispector, diante de um ainda tímido poeta, cantor e compositor da MPB.

O certo é que por essa época, as obras de cunho profundamente psicanalítico de Clarice Lispector inundaram as mentes dos artistas brasileiros, e serviram de fonte de inspiração para muitos, como foi o caso de Marília Pêra.

Segundo a psicologia de Carl Gustav Jung, “a Persona (máscara em latim) opera como mediadora entre o ego e o mundo externo; é um meio termo entre o indivíduo e aquilo que ele deveria ser”. No seu ensaio “Persona” Clarice, se reportando ao uso de nossas primeiras máscaras, em uma perspicaz auto-análise, assim escreve:

...os adolescentes, estes que são puro rosto, à medida que vão vivendo fabricam a própria máscara”. [...]Mesmo sem ser atriz nem ter pertencido ao teatro grego uso uma máscara. Aquela mesma que nos partos de adolescência se escolhe para não se ficar desnudo para o resto da luta. Não, não é que se faça mal em deixar o próprio rosto exposto à sensibilidade. Mas é que esse rosto que estava nu poderia, ao ferir-se, fechar-se sozinho em súbita máscara involuntária e terrível.”

Bem lá no final de seu ensaio psicanalítico a autora conclui de forma magistral:

Se bem que pode acontecer uma coisa que me humilha contar. É que depois de anos de verdadeiro sucesso com a máscara, de repente ah, menos que de repente, por causa de um olhar passageiro ou uma palavra ouvida de repente a máscara de guerra da vida cresta-se toda no rosto como lama seca, e os pedaços irregulares caem com um ruído oco no chão. Eis o rosto, agora nu, maduro, sensível quando não era para ser. E ele chora em silêncio para não morrer”.

O sujeito escolhe a sua máscara (ou sua máscara vem mesmo sem que ele a tenha escolhido?). É com ela que o indivíduo se apresenta no meio social; ela representa o que a pessoa é, não para si, mas para os outros. A coisa funciona de forma tão imperceptível que, às vezes, o sujeito chega a se confundir com o personagem que está representando.

Marília Pêra, a premiadíssima estrela do Teatro Brasileiro, fazendo a apresentação da antológica crônica “Persona” de Clarice Lispector, num texto profundamente analítico diz, bem ao estilo Junguiano:

É muito difícil ser o que se é. O que se é? Onde começa o fio dessa meada? Esse é um mistério da vida.
Somos o que papai e mamãe fizeram de nós. Ou vovô e vovó, titia, babá, professor e irmãos.
Depois livros, filmes, peças, melodias, novelas, hoje internet, nos moldam.
Cores que outros artistas pintaram em nós, eis o que se é.
Nunca outra vez nossa tela em branco?
Atores também são seres cheios de emoções e carências banais.
Por isso talvez fosse aconselhável que atores usassem máscaras, como no teatro antigo.
Porque, sem as máscaras, há o risco de mostrarmos ao público sentimentos que talvez não pertençam aos personagens, mas ao nosso cotidiano mundo, sem transcendência universal.”

A antológica letra de SAMPA mostra, mais do que tudo, a influência de Clarice Lispector nas composições de Caetano Veloso: Quando eu encarei frente a frente não vi o meu rosto” (Caetano). Como era de se esperar, no espelho da fria e cinzenta São Paulo, Caetano jamais poderia reconhecer o seu rosto primitivamente refletido no espelho de sua “terra-mãe”. Quem sabe se restos de um passado emitido pelos arquivos psíquicos secretos, do tempo em que o cantor e compositor baiano lia e refletia sobre os textos de Clarice, não estavam ali emitindo ressonâncias ante a nova e feia megalópole paulista? É que a mente apavora o que não é mesmo velho” diria Caetano, de forma metafórica e auto-biográfica, em sua imortal canção, antes de se tornar “Mutante”.

A letra de SAMPA, explicita que mais tarde, sem perder suas identidades, os novos baianos, num processo de lenta adaptação, passeariam no cruzamento da Ypiranga com a avenida São João, curtindo numa boa sua agradável garoa. No Ensaio “Os Espelhos”, Clarice, disserta sobre o espelhamento de um itinerante que mesmo diante de uma nova realidade, deixa transparecer “vestígios de sua própria imagem narcísica”.

O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho conseguindo ao mesmo tempo isenção de si mesmo, quem consegue vê-lo sem se ver, quem entende que a sua profundidade é ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem não percebeu o seu mistério”.

É que Narciso acha feio o que não é espelho” ― reagiria Caetano. O Mito de Narciso” remete essa expressão de Caetano em Sampa à sua mãe Liríope. “Por desconhecer a própria individualidade, Liríope não pode refletir seu filho Narciso, e este será carente em relação a seu próprio reflexo” (O Mito de Narciso Raíssa Cavalcanti Babel da Psicanálise)

É num pequeno trecho do profundo ensaio “Os Espelhos” que Clarice, numa veia analítica incomum, parece denunciar o “por quê” da estranheza de Caetano frente a fria selva de pedra paulista, tão diferente de sua “cidade-mãe” Santo Amaro da Purificação Bahia:

Vi o espelho propriamente dito. E descobri os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro alto bloco de gelo”. “Não existe a palavra espelho (a velha Santo Amaro de Caetano – grifo meu) só espelhos”.

Por fim, em SAMPA, Caetano chega a percepção de que a “feia São Paulo” é mais um espelho entre outros, “com suas oficinas de florestas e seus deuses da chuva”.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 28 de maio de 2017

06 maio 2017

Os Tempos Estão Mudados




Estamos vivendo tempos difíceis. Quando muitos estão a dizer que o certo virou errado e o errado virou certo é sinal de que estamos vivenciando tempos realmente sombrios. Tempos em que os poderosos da república das bananas lavam suas roupas sujas ao vivo em cores pela televisão, sem o mínimo de parcimônia, pudor e respeito. Na telinha, para serem vistos, discursam, discutem, gesticulam e falam baboseiras em pleno horário nobre ― exalando o odor pútrido de suas próprias vísceras. Que tempos são esses, meu Deus, em que a verdade vem sendo sacrificada sem hesitação para dar lugar a mentiras tão bem elaboradas que fazem vibrar até os menos incautos?

Tudo ficou tão banal, que a nudez do Rei já não provoca mais reações. Tempos sombrios esses, em que o Rei, com sua comitiva real, já não se importa em desfilar nu pelas ruas e praças das cidades. Os súditos, em sua estupidez, por sua vez, fingem não ver a nudez do Rei, e o aplaudem calorosamente. É certo que exceções existem: alguns gatos pingados fogem do trivial, gritando: “Os Tempos estão Mudados!”.

Nos idos de 1964, quando o movimento dos negros ganhou uma intensidade nunca vista nos EUA, Bob Dylan, poeta, cantor e compositor norte-americano, descendente de judeus russos, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 2016, imortalizou seu idealismo edênico na soberba canção “Os Tempos Estão Mudando”.

Pulando para 2017, podemos constatar nas terras do Tio Sam, de Bob Dylan e com mais intensidade nas terras de Dom João VI, os próprios guardiões que mais deviam zelar pelas leis do país, legislando abertamente em causa própria; no nosso caso, pleiteiam a anistia de suas práticas sociais, politicas e econômicas de natureza imoral e perversa.

Pondo mais pimenta na letra magistral da canção “chicobuarquiana”, “Vai Passar”, os escolhidos para entabular as atuais reformas em nossa republiqueta, pasmem, são os mesmos que abertamente estão a dilapidar a nossa pátria mãe. O pior é que, hoje, todos sabem em detalhes como se locupletam o Rei e sua trupe, diferentemente do tempo, que no dizer de Chico, o povão não tinha essa percepção, como mostra a letra do seu emblemático samba-protesto (1984), que se referia “a uma pátria mãe tão distraída, sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”.

A poesia de Bob Dylan, pelo avesso, talvez traduza de forma melancólica os Tempos Sombrios da Nossa Geração, como bem revela a expressão poética: “Pois a roda ainda gira/E não há como saber quem ela vai nomear”. Nada como uma boa dose de reflexão para entender que o pragmatismo insano atual vem pondo em xeque a utopia que varria o mundo de 1964 lá nos EUA e aqui no Brasil, seu quintal. O “beco sem saída” em que nos metemos, ou a vergonhosa agonia tropical que, por ora, nos deixa tristes e céticos ―, é uma amostra de que os “Tempos Estão Mudados”, ou mais precisamente, transmudaram-se em Tempos Sombrios.

A metáfora das duas faces do deus Janus, da mitologia romana — representação simbólica de que o passado e o presente sempre se confundem ―, está mais viva do que nunca.

O mar putrefato que ora invade as nossas instituições, traz à memória a figura de Rui Barbosa. Decepcionado com o mar de lama que corria solto entre os poderes da república do seu tempo, esse destemido jurista, no palco do Senado Federal em 1914, proferiu um antológico discurso. De tão atual, sua veemente declamação continua a reverberar nas cordas de nossos corações, principalmente esse emblemático trecho que, de tão lido e relido, é recitado de cor pela maioria dos estudantes: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver se agigantarem os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Corria o ano de 1964. Tinha dezoito anos de idade, quando o ardor utópico por um mundo melhor e mais justo, tal qual um vento impetuoso, varria o globo anunciando a chegada de novos tempos. Como Bob Dylan, eu também acreditava, mas foi tudo um sonho.


Os Tempos Estão Mudando” (Bob Dylan)


Vem pra cá, pessoal!
Por onde quer que vocês andem
Em volta de vocês subiram
E aceitem que logo
Vão estar encharcados até os ossos
Se vocês acham que vale a pena salvar o seu tempo
Então é melhor começar a nadar pra não afundar como pedra
Porque os tempos, eles estão mudando.


Venham, autores e críticos
Que profetizam com a pena
E fiquem de olhos abertos
A chance não vai voltar
E não falem cedo demais
Pois a roda ainda gira
E não há como saber quem ela vai nomear
Pois o perdedor agora vai depois vencer
Porque os tempos, eles estão mudando.


Venham, senadores, deputados
Por favor ouçam o chamado
Não fiquem parados na porta
Não travem o corredor
Pois quem foi ferido
Será quem tiver demorado
Há uma luta lá fora que está enfurecida
Ela logo vai sacudir as janelas e balançar as paredes
Porque os tempos, eles estão mudando.


Venham, mães e pais
De todo o país
E não critiquem
O que vocês não entendem
Seus filhos e filhas
Não vão mais obedecer
Sua velha estrada envelhece veloz
Por favor saiam da nova se não conseguem dar a mão
Porque os tempos, eles estão mudando.


A linha está traçada
A praga está rogada
A lenta, agora
Será mais tarde acelerada
Enquanto o presente agora
Depois será passado
A ordem está se apagando rápida
E o primeiro agora vai depois ser último
Porque os tempos, eles estão mudando.



Por Levi B. Santos
Guarabira, 06 de maio de 2017
Link da Imagem: www.esquerdadiario.com.br/spip.php?

21 abril 2017

O Petróleo é Dele$






O Semanário de maior circulação das Américas (de 19 de abril), publicou um enorme brasão de Nossa República tomando quase toda a extensão de sua capa, com os seguintes dizeres em sua faixa inferior: “República Federativa da Odebrecht”.

Talvez não saiba o(a) leitor(a) que tudo se iniciou no tempo em que não tínhamos televisão nem internet para levar aos nossos lares, ao vivo e em cores, as negociatas republicanas entre governo, congresso e o poder privado. Como todo aluno dos primeiros anos de escola sabe, foi Getúlio Vargas quem no idos de 1953 criou a estatal Petrobrás para exploração, refino, transporte e comercialização dos derivados do petróleo. Na época prevalecia os oligopólios da Shell, Texaco, Mobil Oil e Esso. Por esse tempo o slogan populista de Getúlio, “O Petróleo é Nosso”, correu o país de ponta a ponta com toda pujança. Só depois de dois anos de renhidas batalhas travadas no Congresso, a Lei que tratava da estatização do petróleo foi aprovada no Senado e sancionada pelo presidente em outubro de 1953. Não me perguntem a que preço foi obtida tal façanha. Fico a pensar com os meus botões: será que os métodos de enriquecimento ilícito da atual República da Odebrecht não são uma reprise, em maior grau, das primeiras transações tenebrosas no campo da exploração do ouro negro pelo Governo e o Congresso da década de 1950?

A História do Brasil registra que foi em 1944 que o jovem Noberto Odebrecht, descendente de alemães, criou sua organização em Salvador na Bahia. Pulando para o ano de 1953 damos de cara com Getúlio e Noberto entabulando um acordo para a criação do oleoduto Catu-Candeias na Bahia. Uma pergunta aqui se impõe: Será que a interação interesseira entre o poder público e o privado acabava de nascer ali, bem pertinho do local onde Pedro Álvares Cabral desembarcara com sua esquadra em abril de 1500?

Acertadamente, os estudiosos dizem que a história é cíclica, ou seja, tudo que está acontecendo hoje já foi parte de um passado. Basta navegar em sentido contrário para se constatar que a rica organização de Noberto Odebrecht, hoje presente em 27 países, começou a ganhar contratos e mais contratos na base da velha amizade com os poderosos, desde o tempo da célebre frase de Getúlio “O Petróleo é Nosso”. Daí por diante a história dessa mega-empresa tomou conta da república de uma forma devastadora e cruel. A Odebrecht se entranhou em todos os partidos de uma forma avassaladora e irresistível, a ponto de o Congresso Nacional, hoje, se debruçar sobre um projeto de anistia para livrar a todos que pecaram e destituídos ficaram do Reino da Glória da República que, com Deodoro e Floriano Peixoto, nasceu fisiologicamente fadada a não dar certo.

Recentemente, com uma tranquilidade incomum que choca até o mais simples cidadão, disse o patriarca Emílio do conglomerado Odebrecht ao Juiz Sérgio Moro: “desde a minha época, da época de meu pai, sempre existiu caixa dois para doações de campanha não oficiais. Na minha época as coisas eram muito mais simples”.

Para salvar a própria pele o delator confessa seus pecados, trazendo à tona procedimentos que nos primórdios eram rotineiramente encobertos. Quem de nós poderia um dia imaginar que um dos Odebrecht viria a público afirmar categoricamente que de 2005 a 2015, para seu bel prazer, influenciara na aprovação de vinte atos do governo e do Congresso as malfadadas medidas provisórias?

Tem razão, Emílio, o mundo tecnológico de hoje está muito complexo. Tudo vê, tudo cata e não perdoa nada. No fundo, tudo é culpa da era cibernética que deixou o homem mais nu, ou excessivamente transparente. Com relação as práticas pouco republicanas nunca é demais fazer um retrospecto sobre a nossa depravada história, para compreender que os tristes e vergonhosos procedimentos atuais são apenas um repeteco do que se praticava no Brasil-Imperial, como narra de maneira lúcida e carregada de humor, Laurentino Gomes, em sua Trilogia histórica.

Em 2010, o patriarca da Odebrecht já reclamava dos destaques que a imprensa dava a cada escândalo que surgia, um atrás do outro. “Me incomoda isso, como se fosse surpresa” concluiu, uma vez, Emílio.

Até parece que o delator, orgulhosamente, em analogia ao dito salomônico “Nada há de novo debaixo do sol” está aqui a demonstrar que tanto os fatos do passado quanto os fatos escabrosos do presente continuam os  mesmos em nossa republiqueta. Em que pese a ação insistente da Lava-jato, eles parecem ter a certeza de que seus crimes prescreverão e o petróleo continuará sendo deles.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 21 de abril de 2017

14 abril 2017

A Carne é Fraca





Muito se tem falado nos últimos dias sobre a “carne fraca” em nosso país. Mas não quero me deter, aqui, sobre a questão comercial de alguns frigoríficos que, na ganância pelo lucro fácil, foram pegos em graves irregularidades na conservação da carne bovina destinada ao consumo da população.

A expressão “Carne Fraca” remete aos meus tempos de estudante do curso científico no Liceu Paraibano em João Pessoa – Pb. Na semana da páscoa, quarta-feira era o último dia de aula. Como reza a música de Dorival Caymmi, “era quarta-feira santa, dia de pescar e de pescador” que o peixe se tornava farto nas mercearias e feiras das cidades. Por não haver carne à venda, muitos protestantes terminavam por se alimentar do bacalhau seco, que nesse tempo era um prato economicamente bem accessível aos menos abastados.

Os padres, seguindo a tradição do catolicismo aconselhavam seus fiéis a se abster da carne nesse período. Os pastores protestantes, por sua vez, afirmavam convictos que não comer carne na semana santa não tinha respaldo bíblico. No nordestinês: nenhum dos lados davam o braço a torcer.

Na casa de minha mãe (Bazinha) todo o final de semana a galinha caipira cozida acompanhada do feijão verde, arroz e macarrão era o menu sempre servido no almoço aos domingos. No final da semana santa, para satisfazer os desejos e vicissitudes de nossa fraca carne, não resistíamos em comer da carne dessa saborosa ave, tão comum em nossas plagas. 

Minha mãe criava muitas galinhas no quintal de casa em Alagoa Grande - Pb. Bia, uma prima nossa, considerada nossa segunda mãe por morar conosco desde os tempos em que eu e meu irmão éramos bem pequenos, de madrugada, com o dia ainda não totalmente claro, dirigia-se ao quintal para, em silêncio e com pés de lã, matar uma galinha caipira que secretamente ao meio dia devorávamos no almoço. Pelo que sei nenhum vizinho tomou conhecimento de nossa refeição de portas fechadas. Acho que coisa boa não poderia acontecer se algum católico (ou mesmo um crente fundamentalista) aparecesse de surpresa na hora de nossa herética refeição. Lembro que a caçarola de galinha fervendo era bem tampada para não deixar vazar o odor agradabilíssimo para fora de casa e chamar a atenção dos vizinhos. Em suma, fazíamos de tudo para evitar o escândalo de ser cognominado de sacrílegos.

Agora, me vem à mente a frase atribuída ao Jesus dos evangelhos: “O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.

Não sei, talvez a expressão a carne é fraca” acima tratada pelos evangelistas, como figura de linguagem representativa de nossas vicissitudes, tenha, naqueles idos, nos redimido da culpa por um almoço extravagante degustado às escondidas em plena Sexta-Feira da Paixão.


Por Levi B. Santos
Guarabira, 14 de abril de 2017

21 março 2017

O Criador da Psicanálise e Sua Criatura Em Face de Hitler


O Criador (Freud) e sua criatura (Jung)


Freud, o criador da psicanálise, tinha a alma dividida entre as correntes sionista e antissemita. Talvez, por isso, tenha se detido muito sobre o termo “ambivalência”. Por ser um judeu da diáspora, foi considerado um infiel pelos seus. Queria fazer de Carl Gustav Jung seu sucessor, mas a criatura era filho de um pastor protestante. Portanto, como cristão, acima de tudo, Jung não poderia deixar de corroborar com o ideal bíblico de uma Terra Prometida só para os judeus no caldeirão fervente da Palestina.

O grande embate entre o Criador e sua criatura se deu com o florescimento do hitlerismo. A historiadora da psicanálise de origem francesa, Elisabeth Roudinesco, no livro “Sigmund Freud Na Sua Época e Em Nosso Tempo”, editado na França em 2014 e aqui pela Zahar em 2016 obra muito aplaudida pela crítica mundial , relata que em fevereiro de 1930, bem antes do início da segunda grande guerra, o velho barbudo argumentava perante o físico, Albert Einstein, sobre o fanatismo irrealista de seus irmãos em criar um Estado Judeu na Palestina. Portanto não partilhava da ideia sionista de recuperar os lugares sagrados para si. Dizia ele: “Não posso sentir qualquer simpatia por uma fé mal interpretada que faz de um pedaço do muro de Herodes uma relíqua nacional e, por causa dela desafiar os sentimentos dos habitantes do país. […]Teria sido mais sensato fundar uma pátria judaica num solo não historicamente carregado”.
Lógico que, como todo judeu da Diáspora, Freud jamais poderia ser adepto do sionismo. Sionismo, que depois mostrou a sua verdadeira cara: “um movimento político cujo objetivo era um governo de influência mundial controlado pelos banqueiros internacionais de orientação sionista”.

Por outro lado, Jung, criatura freudiana, na época da ascensão de Hitler principal personagem da 2ª guerra mundial , mantinha a concepção dúbia de que havia um arquétipo judaico no inconsciente coletivo do povo judeu; ao mesmo tempo, percebia o fulgor das massas em torno do Führer como uma resposta natural do inconsciente cristão na psique da raça ariana. Em uma correspondência de 1934 diz jung: “Freud já me acusou de antissemitismo só porque me recusei a aprovar seu materialismo sem alma. Com essa propensão a farejar antissemitismo em toda parte, os judeus terminam efetivamente por gerar antissemitismo”. (Elisabeth Roudinesco… página 421). Na ótica de Freud e da elite judaica anti-semitismo não era o mesmo que anti-sionismo.

A Alemã de origem judaica, Hannah Arendt (filósofa política e ex-aluna de Heidegger), ainda nos dias atuais é considerada “persona non grata” por, em seu polêmico livro “Eichmann em Jerusalém”, entender, assim como Freud, que o sionismo, no fundo, era uma ideologia racista e nacionalista.

Elisabeth Roudinesco, sobre ambivalência refletida na dualidade “sionismo-antissemitismo”, coloca Jung em um conflito idêntico ao de Freud: “Ao mesmo tempo que recriminava os judeus por forjar as condições de sua perseguição, Jung pretendia ajudá-los a se tornarem melhores judeus. O que equivalia a dizer que, em conformidade com sua teoria, Jung recusava o modelo freudiano de judeu sem religião, do judeu do iluminismo. Condenava a figura moderna do judeu desjudaizado e culpado, segundo ele, por haver negado sua 'natureza' judaica. […] No intuito de conduzir os judeus ao terreno da psicologia da diferença, Jung passou a acompanhar a evolução de seus discípulos judeus exilados na Palestina”. Contudo, em uma de suas correspondências, deixou uma emblemática pergunta no ar: “Seria por estarem tão habituados a não serem judeus que os judeus precisam concretamente do solo palestino para reconduzi-los à sua judeidade?”

Olhando bem, não se constitui um paradoxo o que Elisabeth Roudinesco aqui afirma em seu memorável livro: Jung era sionista por antissemitismo, ao passo que Freud recusava o sionismo porque não acreditava um só instante na ideia de que os judeus encontrariam uma solução para o antissemitismo conquistando a Terra Prometida”.

Quando a coisa nazista se acentuou, o Criador (Freud) fugiu para Paris, e de lá para a Inglaterra, que o recebeu de braços abertos. Quanto a criatura Jung, foi por Göring alçado a presidência do Instituto Alemão de Pesquisa Psicológica e Psicoterapia. Nesse balaio de gatos se agruparam dissidentes freudianos, junguianos e supostos “independentes”.

Apesar de sua biografia manchada pelo fato de ter ficado durante grande parte do período bélico ao lado de Hitler, há controvérsia se Jung foi realmente um colaborador nazista. Como a ambiguidade é a marca essencial da psicanálise, a história registra que a criatura no final da segunda guerra foi recrutada pelo serviço secreto americano para servir como agente em prol dos aliados. Em 1946, terminada a segunda grande guerra, um proeminente professor judeu em visita a Suíça recusou-se a dialogar com Jung. Depois de uma violenta discussão com o rabino, Jung rendeu-se: “Está certo, eu vacilei.” (Jung Uma Biografia Frank McLynn Record Editora)

Enquanto isso, o Criador (Freud), agora bem instalado no paraíso londrino que lhe serviu de asilo, longe do inferno nazista, voltava-se para um tema polêmico e ambíguo, como é tudo que se refere aos elementos míticos do campo religioso judaico-cristão, pondo, aos 82 anos de idade, os retoques finais em seu “Moisés e o Monoteísmo”, publicado no ano de sua morte (1939). Ficou lúcido até a partida, no dia do Perdão (Yom Kipur), em setembro de 1939, quando o espectro da guerra caía por toda a cidade de Londres, em meio a máscaras contra gases que eram distribuídas para fazer face aos intensos bombardeios que a Alemanha do demoníaco Hitler despejaria naquele fatídico mês sobre seu último refúgio a Inglaterra.


Por Levi B. Santos

Guarabira, 21 de março de 2017


17 fevereiro 2017

“A Mãe” — Resenha e Um trecho da 3ª Parte de “A Volta do Filho Pródigo”





André Gide, Freud e Marcel Proust foram contemporâneos. Nos primeiros 25 anos do século XX, já concordavam entre si, que a mãe se constituía o primeiro objeto de amor da criança, e que isso se repercutiria nas identificações que ocorreriam na vida adulta do indivíduo. André perdeu o pai aos doze anos de idade e, segundo estudiosos de sua biografia, ficou submetido aos ditames de sua rígida mãe. Lavando em consideração esse fato, o diálogo entre a mãe e o filho pródigo tem, ainda hoje, em suas entrelinhas, algo profundo, proveniente dos arquivos psíquicos da tenra infância do ser humano. Foi na fervilhante França da “Belle époque” que se começou a explorar os recalques de natureza psíquica que se escondiam por trás das máscaras sociais.

Sobre o autor, quando era criança, há quem diga que as histórias que sua mãe contava junto ao leito para que conciliasse o sono, influenciaram todas as suas obras posteriores.

A atração que a mãe exerce sobre o filho pródigo está bem evidente nessa parte do emblemático diálogo: “Não há nem um só de meus pensamentos de ontem que não se tenha hoje tornado em vão” diz o filho. A função de mãe é tão forte e tão alienante em Gide, que fez com que o filho pródigo da parábola abdicasse de escolher uma esposa para ele. Embevecido pelo seu lado maternal, deixou para sua genitora a determinação de fazer a escolha segundo seus anseios, como bem evidencia essa parte do diálogo: “Não importa qual seja a preferida, desde que vós a escolhais”. A mãe convencerá o filho pródigo a ser parecido com os que, em sua ausência, ficaram em Casa. Resignadamente, dirá o filho rebelde: “Meu único anseio daqui por diante é parecer-me a vós todos”, em contraposição às falas anteriores entre mãe e filho: “Que buscavas então lá fora? (pergunta a mãe). “Buscava… quem eu era”(responde o filho).

Quando a função materna sobrepuja a função paterna se eternizando ou se fixando na psique da criança, influências afetivas derivadas desse tipo de alienação se interpõem nos futuros inter-relacionamentos do sujeito, considerado transgressor pelo status social.


(Resenha ― Por Levi B. Santos)



Pródigo filho, cujo espírito recalcitra ainda com os argumentos do irmão, deixa agora teu coração falar. Como se sentes bem, reclinado aos pés de tua mãe sentada, com o rosto apoiado nos joelhos dela a sentir-lhe a mão que te acaricia a nuca rebelde.

Por que ficaste tanto tempo longe de mim?
E como respondes apenas com tuas lágrimas:
Para que chorar agora, meu filho? Foste me devolvido. À tua espera verti todas as minhas lágrimas.
Sempre estivestes à minha espera?
Jamais deixei de te esperar. Antes de dormir, pensava, a cada noite: se ele voltar ainda hoje, saberá como abrir a porta? E levava muito tempo a dormir. Cada manhã, antes mesmo de levantar-me, pensava: será hoje que ele voltará? Depois rezava. Rezei tanto, que tinhas certamente de vir.
Vossas preces forçaram meu retorno.
Não te rias de mim, meu filho.
Ó mãe! Eu volto com humildade. Vede como ponho minha fronte abaixo de vosso coração! Não há um só pensamento de ontem que não se tenha hoje tornado em vão. Só agora compreendo, perto de vós, por que abandonei a casa.
Não partirás mais?
Não posso mais partir.
Que então te atraía lá fora?
Não quero mais pensar nisso: nada… Eu mesmo.
Achas que podias ser feliz longe de nós?
Não era a felicidade que eu buscava.
Que buscavas então?
Buscava… quem eu era... 
Trecho do diálogo sobre a esposa que o filho pródigo irá tomar:
Já vos disse: farei por me parecer com meu irmão mais velho; administrarei meus bens; como ele, tomarei esposa…
 Sem dúvida pensas em alguém, quando dizes isso.
Oh! Não importa qual seja a preferida, desde que vós a escolhais. Fazei como fizestes com meu irmão. 
Gostaria de escolhê-la de acordo com teu coração.

(*) André Gide



De “A Volta do Filho Pródigo”, reproduzi, acima, uma pequena parte do capítulo “Mãe”, encimada por uma diminuta resenha de minha parte. Sem a leitura do interessantíssimo capítulo que trata da surpreendente conversa do Pródigo com seu irmão mais novo (O Caçula que tinha dez anos quando o filho pródigo partiu) encerrando o antológico ensaio de André Gide, o leitor(ou leitora) não irá entender o jogo subjetivo, intrínseco da alma humana, que tem na mãe, no pai e nos irmãos, os elementos primordiais constitutivos da própria história do indivíduo.

O antológico livro “A Volta do Filho Pródigo” de André Gide, escrito em 1909, contêm ainda mais quatro fenomenais ensaios: “O Tratado de Narciso”, “A Tentativa Amorosa”, El Hadj, Filoctetes e Betsabe. Estando a disposição dos leitores nas Livrarias Saraiva (Saraivadebolso) Tradução de Ivo Barroso. Obra imperdível para os apreciadores da boa literatura de fundo psicanalítico.

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Guarabira, 17 de fevereiro de 2017